É favor escrever mais, e em português. Grato

Esses dias comecei a levantar uma bandeira com o meu camarada Arthur Freitas: a de que ele devia escrever mais. Quero dizer, melhorando o título desse post, que ele devia escrever (e publicar) textos mais longos… que se demorasse um pouco mais em algumas idéias. Isso porque eu conheço ele e desconfio que tenha boas idéias, assim como uma série de amigos meus.

O meu argumento, para o caso onde ele ou a maioria das pessoas dissessem que “não tem tempo”, foi simples. Se você pegar uma dia inspirado (ou dois ou três, depende de cada um) de 10 twittadas, multiplicados por 140 caracteres, isso dá um total de 1400 caracteres! Um pouco mais do dobro do que já escrevi até aqui e o suficiente pra contar um boa história.

Eu uso o meu blog para isso, assim como o email para algumas mensagens privadas mais longas. Mas pra quem já acha isso ultrapassado, assim como as missivas — vocês deviam conhecer o Heron, a única pessoa que ainda é capaz de enviar uma carta nos dias de hoje –, existem possibilidades como as notas do Facebook, para textos mais trabalhados.

Writings

Foto: robynhub (flickr)

Se você ainda está aqui, posso considerar que você também gosta de ler textos longos, afinal de contas, já são 1151 caracteres até aqui, uau! E além disso, como leitor atencioso que é, deve estar se perguntando “por que o português no título do post?”. É de um outro componente do atrofiamento da língua escrita que quer falar. Uma percepção particular minha, então fiquem à vontade pra discordar.

Percebo é que estamos lendo muito, nos informando e nos educando a partir do inglês. Observo isso sobretudo na área da tecnologia, onde atuo, mas vale também pra outras áreas.

O que acontece é que o nosso português está ficando meio “inglesado”. Pra me entenderem bem: o nosso jeito de pensar é que está ficando assim. Como língua materna, o português permite que a gente se expresse com o maior número de nuances possíveis, fazendo mais justiça ao que nos passa na cabeça. Eu vejo gente usando awesome!, terrific! e amazing! quando no lugar disso, um bom duca! ou afudê! (coisa do sul) bastaria e faria muito mais sentido.

Antes que eu fique nacionalista, um recado aos compatriotas de língua: o prato que nos serve melhor sempre vai ser o bom o velho portuga, então a minha dica é vá aprender latim antes de tudo (ou línguas que também vieram daí, como espanhol, italiano, francês, romeno), que você ganha muito mais!

Invisible man

“You’re invisible now, you got no secrets to conceal”

Tava ouvindo a canção Dylanesca dias desses num final de tarde. Canção executada como de praxe, dentro de um repertório de músicas invisíveis do rádio. Porém, dentro da sua transparência, um verso de “Like a rolling stone”me chamou a atenção, me surpreendeu de maneira inusitada.

Pense bem: se o cara é invisível, ele não tem nada para esconder. É lógico, não é? Mas o que mais isso quer dizer?

Primeiro de tudo, ser/estar invisível é deixar de ocupar um lugar especial: o de bom ou mau menino; o de melhor ou pior aluno; o de pária ou bem sucedido homem. Essas são faces, e quem diabos precisa de uma quando não é visto? Assim como escolheu ser invisível, também abriu mão de ter que escolher com que cara vai se mostrar.

Sem cara, sem segredos. Sobretudo para si. A gente evita e adia esses momentos de invisibilidade, eles dão medo, é a verdade. Se abrir consigo, porém,  parece um caminho inevitável e sem volta.

O paradoxal é que aí você de fato começa a ser visto verdadeiramente. Você passa de vácuo material a presença imaterial. Como no negativo de um filme, você é aquilo que não aparece.

Você e eu somos como a gente se vê. Grata surpresa que esses versos me trouxeram.

Foto: flickr.com/hi-phi

Cartum & eu

A minha trajetória/interesse pelo Cartum — tipo de humor gráfico universal e atemporal — remonta a eras remotas da minha existência.

Me lembro de ver um colega desenhando, lá pelas primeiras séries do primário, e invejá-lo pelo facilidade de desenhar e pelo poder que tinha em sintetizar uma idéia num desenho estilo “simpsons”, ou seja, bem redondinho e econômico. A partir dali passei a perseguir essa “economia”, mas em geral acabava desenhando mais do que devia (ou do que queria).

Fiz um curso lá pelos 14 anos de “Cartum, Charge e Caricatura”, que são três modalidades do humor desenhado. Sobre a diferenciação dessas três, e sobre o cartum em especial, se baseou a minha monografia de Publicidade e Propaganda (PUCRS, junho de 2007). Acredito que foi o gosto por essa linguagem que me levou ao Design Gráfico e à Publicidade. Esta última tem muito de cartum: rapidez; sátira, ironia ou assemelhados; surpresa…

No curso de Artes Plásticas (UFRGS, concluido em 2009), trabalhei mais com essa matéria bruta, às vezes excedente da pintura, do desenho gestual, não tão preso à mesa ou à mão como em geral é o desenho de um cartunista ou desenhista de quadrinhos.

Hoje em dia mesclo um pouco da economia com o excesso, da sujeira com a limpeza, o que depende de fatores como o cliente para o qual estou prestando um serviço, ou a intenção de uma idéia gráfica, dentre outros.