Das coisas que aprendi na vida

Imagine só: o Titanic está afundando e você está nele. As pessoas correm desesperadas pra se salvar. Um nervosismo toma conta do ar, e alguém tem que fazer algo, alguém tem que acalmar os ânimos daquela gente. Você. Porque você tem uma baita vivência, tem cartas na manga, sabe o que fazer numa hora dessas. E vai ter que lançar mão dessas cartas, pelo seu bem e de todo mundo.

É sobre isso que eu quero falar, sobre os nossos trunfos. Os aprendizados que, sofregamente ou não, passaram a fazer parte do nosso repertório. O fato é que, agora, eles podem salvar vidas.

Tocar Quena

Sim, tocar quena! Uma flauta simpática que se toca muito nos Andes. Você conhece o som dela. Eu aprendi a tocá-la por conta própria. Além disso, eu fiz a minha própria quena! Fiz os furos com um ferro quente no fogão de casa (os mais profissionais recomendam cavar o furo com um canivete, pra não “assustar” a madeira). Vá lá, não é a melhor do mundo, mas as notas e a música estão ali.

Tocar Bateria

Essa eu ainda estou aprendendo. Ou melhor, estudando — aprendendo a gente sempre está (fato). Você não imaginam a alegria de ir pra um estúdio e descer a lenha numa batera. Bom, dá pra fazer isso com sutileza também, fica bonito. E digo mais: dá pra tocar bateria mesmo ser ter uma, em casa, no trabalho. Porém, atenção com os vizinhos, o risco de morte é iminente!

Jogar Polo Aquático

Na primeira aula — há poucos meses — eu pensava: “não vai dar, nos próximos dois minutos eu vou afundar aqui nessa piscina pra nunca mais voltar à tona!˜, tamanho é o esforço que exige esse esporte de um iniciante. Mas aí como (quase) tudo na vida, a gente vai superando um desafio aqui, outro acolá, de forma que hoje eu não tenho mais medo de morrer afogado.

Falar Francês

No tempo em que morei na França e aprendi a base que sei hoje, eu tive uma lição. Uma lição sobre “aprender a aprender”. Foi de um colega italiano que precisava aprender a língua assim como eu. O cara tinha uma necessidade insuperável de falar, de se comunicar, de tagarelar (bavarder, no bom français). E por conta disso, acho que aprendia mais rápido que os outros. Aprende mais rápido — não sei se necessariamente melhor — quem tem muita vontade e necessidade de aprender.

Fazer Cerveja

Infelizmente, eu ainda não sei. Mas já estamos trabalhando pra isso. Um aprendizado mão na roda, porque não vou mais ter que ir ali na esquina comprar.

Desenhar

Rezam as estatísticas (e não a lenda, porque os números são mais sagrados nos dias de hoje) que as pessoas que desenham quando adultas, fazem-no porque não pararam de desenhar depois de crianças. E há ainda uma outra estatística — desculpem, perdi a referência dela — que diz que nove entre dez desenhistas gostaria de desenhar com a mesma naturalidade e espontaneidade que desenhava quando era criança. Estou entre os nove. O décimo desenhista, esse já conseguiu.

É favor escrever mais, e em português. Grato

Esses dias comecei a levantar uma bandeira com o meu camarada Arthur Freitas: a de que ele devia escrever mais. Quero dizer, melhorando o título desse post, que ele devia escrever (e publicar) textos mais longos… que se demorasse um pouco mais em algumas idéias. Isso porque eu conheço ele e desconfio que tenha boas idéias, assim como uma série de amigos meus.

O meu argumento, para o caso onde ele ou a maioria das pessoas dissessem que “não tem tempo”, foi simples. Se você pegar uma dia inspirado (ou dois ou três, depende de cada um) de 10 twittadas, multiplicados por 140 caracteres, isso dá um total de 1400 caracteres! Um pouco mais do dobro do que já escrevi até aqui e o suficiente pra contar um boa história.

Eu uso o meu blog para isso, assim como o email para algumas mensagens privadas mais longas. Mas pra quem já acha isso ultrapassado, assim como as missivas — vocês deviam conhecer o Heron, a única pessoa que ainda é capaz de enviar uma carta nos dias de hoje –, existem possibilidades como as notas do Facebook, para textos mais trabalhados.

Writings

Foto: robynhub (flickr)

Se você ainda está aqui, posso considerar que você também gosta de ler textos longos, afinal de contas, já são 1151 caracteres até aqui, uau! E além disso, como leitor atencioso que é, deve estar se perguntando “por que o português no título do post?”. É de um outro componente do atrofiamento da língua escrita que quer falar. Uma percepção particular minha, então fiquem à vontade pra discordar.

Percebo é que estamos lendo muito, nos informando e nos educando a partir do inglês. Observo isso sobretudo na área da tecnologia, onde atuo, mas vale também pra outras áreas.

O que acontece é que o nosso português está ficando meio “inglesado”. Pra me entenderem bem: o nosso jeito de pensar é que está ficando assim. Como língua materna, o português permite que a gente se expresse com o maior número de nuances possíveis, fazendo mais justiça ao que nos passa na cabeça. Eu vejo gente usando awesome!, terrific! e amazing! quando no lugar disso, um bom duca! ou afudê! (coisa do sul) bastaria e faria muito mais sentido.

Antes que eu fique nacionalista, um recado aos compatriotas de língua: o prato que nos serve melhor sempre vai ser o bom o velho portuga, então a minha dica é vá aprender latim antes de tudo (ou línguas que também vieram daí, como espanhol, italiano, francês, romeno), que você ganha muito mais!

Invisible man

“You’re invisible now, you got no secrets to conceal”

Tava ouvindo a canção Dylanesca dias desses num final de tarde. Canção executada como de praxe, dentro de um repertório de músicas invisíveis do rádio. Porém, dentro da sua transparência, um verso de “Like a rolling stone”me chamou a atenção, me surpreendeu de maneira inusitada.

Pense bem: se o cara é invisível, ele não tem nada para esconder. É lógico, não é? Mas o que mais isso quer dizer?

Primeiro de tudo, ser/estar invisível é deixar de ocupar um lugar especial: o de bom ou mau menino; o de melhor ou pior aluno; o de pária ou bem sucedido homem. Essas são faces, e quem diabos precisa de uma quando não é visto? Assim como escolheu ser invisível, também abriu mão de ter que escolher com que cara vai se mostrar.

Sem cara, sem segredos. Sobretudo para si. A gente evita e adia esses momentos de invisibilidade, eles dão medo, é a verdade. Se abrir consigo, porém,  parece um caminho inevitável e sem volta.

O paradoxal é que aí você de fato começa a ser visto verdadeiramente. Você passa de vácuo material a presença imaterial. Como no negativo de um filme, você é aquilo que não aparece.

Você e eu somos como a gente se vê. Grata surpresa que esses versos me trouxeram.

Foto: flickr.com/hi-phi

Cartum & eu

A minha trajetória/interesse pelo Cartum — tipo de humor gráfico universal e atemporal — remonta a eras remotas da minha existência.

Me lembro de ver um colega desenhando, lá pelas primeiras séries do primário, e invejá-lo pelo facilidade de desenhar e pelo poder que tinha em sintetizar uma idéia num desenho estilo “simpsons”, ou seja, bem redondinho e econômico. A partir dali passei a perseguir essa “economia”, mas em geral acabava desenhando mais do que devia (ou do que queria).

Fiz um curso lá pelos 14 anos de “Cartum, Charge e Caricatura”, que são três modalidades do humor desenhado. Sobre a diferenciação dessas três, e sobre o cartum em especial, se baseou a minha monografia de Publicidade e Propaganda (PUCRS, junho de 2007). Acredito que foi o gosto por essa linguagem que me levou ao Design Gráfico e à Publicidade. Esta última tem muito de cartum: rapidez; sátira, ironia ou assemelhados; surpresa…

No curso de Artes Plásticas (UFRGS, concluido em 2009), trabalhei mais com essa matéria bruta, às vezes excedente da pintura, do desenho gestual, não tão preso à mesa ou à mão como em geral é o desenho de um cartunista ou desenhista de quadrinhos.

Hoje em dia mesclo um pouco da economia com o excesso, da sujeira com a limpeza, o que depende de fatores como o cliente para o qual estou prestando um serviço, ou a intenção de uma idéia gráfica, dentre outros.