La route de Grenoble à Pont-Audemer (mars 2006)

Rota disparatada começa montando um caminho caduco duro de roer curva por curva estradas de neve a borda de um lac fugindo pedágios num round point contínuo uma volta só de ida quem se encontra perdido se acha em si mesmo vidrado em variantes de uma mesma via cada pequena cidadezinha que me passava pela cabeça a idéia de chegar a algum lugar lugar algum Fórmula 1 Rouendo unhas enredados em Paris clic-clac depois do carrefour pega a direita nacional departamental e tudo mais e tal à meriva zarpamos num parto não-porto nem me importo pizza à emporter porta a dentro mundo a fora Normandia porque o sol se deita tarde porque  senão seria Normanoite rá rá rá.

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De PoA a Três Coroas (22 de Abril de 2002)

O início duvidoso – A certeza subsequente de que algo iria acontecer – Transporte na Maria fumaça sobre trilhos que causam enjôo – Armando barracas na chuva – Pedido de paz – Vinho – Tarde de declarações – O valor de um pé – Lanterna traseira que pisca – Frei Damião é o santo do vinho – A visita do Frei – Walesa e Vanessa – A primeira, eu encaro sozinha – A segunda, só acompanhada da primeira – Greta Gretada – A vontade de ser corrente e de não ser levado por ela – O relato sobre a loucura que acometeu uma guria – A purificação no Rio Paranhama – Mato espinhoso – Atum, um personagem – De volta, o velho veio de guarda chuva.

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O Troglodita

Àquele que fala várias línguas, habitualmente dá-se o nome de: troglodita. Pois nessa vida me constituí assim, como um sujeito que sabe um pouco de todas elas, mal. Ou, no mínimo, de uma forma muito particular, que às vezes ninguém compreende.

As expressões que mais me atraem, quando aprendo uma língua, são as de xingamento. Por via delas, me apodero do título de cidadão nos lugares por onde passo. Nada mais cidadão do que reclamar, e nada mais eficaz que uma reclamação veemente (ou deemente).

Na esteira dos acontecimentos, tratei de aplicar todos os conhecimentos que a esteira me trouxe. Essa vida sempre nos traz algo de interessante. Os que têm uma penca de coisas interessantes para mostrar, em geral, se tornam professores, não sem prejuízo pra si. “Numa escala de 0 a 10, como você avalia o conhecimento de Fulano na língua Tal?”. Esse é todo o drama de quem julga o conhecimento de outrem. Como troglodita, nunca soube responder à pergunta nesses termos. Vejam meus critérios.

Nas minhas viagens ao estrangeiro freqüentemente flagrei, nos “donos da terra”, um sentimento de estranheza para com a minha pessoa. “Tudo transcorria bem até você chegar. Ou mal. Não importa, isso é problema nosso. O que você tem para nos oferecer?”. Pergunta justa, em boa parte das vezes feita sem raiva ou maldade. Nessa hora, urge uma boa resposta, e é bom que ela seja positiva. Tudo o que você precisa saber se resume num monossílabo, a mais positiva das palavras, o supra-sumo da positividade: o “sim”.

Diálogo hipotético:
“É a sua primeira vez aqui?”
“Sim.”
“E você fala a nossa língua?”
“Sim.”
“Ah, que ótimo!”
“Sim!”
“E o que o traz até nosso país?”
“Sim.”
“Sim? Que tipo de resposta é essa?!”
“Sim…”
“Não, não é possível! Que grande mentiroso você é!”
“Sim.”
“E estúpido.”
“Sim.”
“Meu deus! Desse jeito você não vai durar muito, vão comer seu fígado logo, logo.”
“Sim, sim.”
“Você precisa de ajuda, venha comigo.”
“Sim.”

O “sim”, portanto, é uma prova de humildade.

Outra prova do mesmo nível, é aprender a demonstrar a necessidade vital mais básica, a fome. Você pode se privar de comer por alguns dias. Ficar sem ver TV. Não usar desodorante. Ficar sem falar! Mas a sua sobrevivência depende, em determinado momento, da pronunciação da palavra mágica e infalível, a palavra “fome”.

Em suma, as três competências lingüísticas que enumerei anteriormente – a capacidade de xingar/esbravejar, somada à de dizer ”sim” e “fome” – são mais que suficientes para empreender uma viagem para fora. Numa escala de 0 a 10, elas garantiriam um belo 9, quem sabe. O último ponto fica por conta do improviso.

Schizzo

Schizzo = Sketchbook em italiano.

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Proposição de Projeto

Projeto enviado em 30/10/2008 para o Camac.

Meu projeto de residência no Centre d’Art Marnay é a continuidade de uma pesquisa que vem sendo realizada desde o meu ingresso no Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.

desenho1_miniDurante esse período, escolhi a pintura como técnica principal para a materialização do meu pensamento artístico, e paralelamente também tenho utilizado bastante o desenho. O que vem me atraindo, nessas técnicas, é a expressividade da cor na pintura, a capacidade de síntese do desenho e, em ambos os casos, o desafio de representar o espaço na superfície bidimensional.

Numa exposição individual recente, mostrei uma série de trabalhos que medem 1m x 1,20m. No projeto que pretendo executar em Marnay, minhas telas terão um formato de 3,5m x 5m.

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O que não te agrada, Descartes!

descartesDo fundo de um armário, na capa de um caderno todo preenchido com uma escrita incessante e sem nexo (meus 18 anos), essa figura insolente me mira e me desafia: “vai, me joga fora na próxima grande limpeza! só não te esquece: se eu realmente for algo marcante pra ti (uma grande decepção, um desejo não concretizado, uma boa idéia abandonada), me lançar pela janela não vai adiantar. Só me lance no anonimato se for capaz de me esquecer”.

Graça

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Brasis

Quem é o Brasil, quem são os brasis?

Qual é o Brasil de domínio público? Quem domina o público no Brasil? Qual é o público dominante do Brasil?

O Brasil privado, o Brasil de vida privada. O Brasil na privada. O Brasil dos banheiros, o Brasil de segredos, o Brasil que secreta, o Brasil que segrega.

O Brasil ligado nos tubos, nos aparelhos… de TV. O Brasil das âmpolas… de cerveja. O Brasil que tem remédio.

O Brasil de quem é. E o Brasil, de quem é?

Ser ou não ser? Cerca ou não cerca? Negócio fechado!

Brasil, mil vezes Brasil, Brasil-il-il, óóó meu Brasiiiiiiiiil! Ó patria amada: “salve! salve!”.

O Brasil educado, o Brasil “mas que falta de educação!”.

O Brasil e suas leis, o Brasil de lei, o pau-brasil madeira de lei.

O Brasil desemprego, o Brasil dez empregos, o Brasil diz: emprego! O Brasil que ninguém emprega.

O Brasil no papel, o Brasil de papel.

O papel que os brasileiros fazem. O papelão que alguns brasileiros fazem. Alguns brasileiros que fazem cama de papelão.

O Brasil de papel-moeda-corrente-no-pé.

O Brasil em que dá pra viver. O Brasil de quem dá pra viver.

O Brasil vendido. O Brasil venal, com suas veias, com suas “véias”, a que veio?

O Brasil do público, mera audiência, público que só assiste, inassistido.

O bondinho e o Caveirão

Duas realidades, duas maneiras de se organizar: o bondinho e o Caveirão.

O Caveirão, imaginem, é uma mistura de carro forte, submarino e tanque de guerra, pintado de preto, desgastado pelo tempo e pelos tiros. Às vezes os dois andam lado a lado, subindo o morro: “Lá vai o Caveirão!”, exclamam atônitos ou habituados os que vão dentro desse microcosmo chamado bonde.

O bondinho é uma irmandade ou, no mínimo, uma realidade social incontestável. As pessoas ora se ajudam, ora se aturam. Convivem. O bondinho convive com o Caveirão. A essa altura vocês já devem ter se perguntado: por que bondinho bondinho bondinho com letra minúscula e CAVEIRÃO CAVEIRÃO CAVEIRÃO maiúsculo? Este aqui parece ser único, enquanto daquele outro podem existir mil exemplares, todos singulares. O Caveirão é duro, objetivo e tem limites bem definidos. Sabemos que ele serve para entrar no fogo cruzado.

Agora, e o bondinho, a que veio? Desocupados, trabalhadores, crianças, velhos, grávidas… o que fazem essas pessoas nele? Vão pra lá e pra cá. Decerto tem o que fazer cada um com os seus problemas pra cima e pra baixo. Porém, no bonde, tudo se confunde. Quem mora lá no morro, quem está a passeio?

Tudo é / todos são passageiros.

Caveirão é certeza de tiroteio. Bondinho não é certeza de que se vai chegar; funciona, mas é precário. Literalmente, está por um fio. No bonde se conversa, e há sempre lugar pra mais um. Nunca vi querer andar de caveirão! E no mais, o silêncio lá de dentro é mortal.