Essa é a minha intenção ao postar coisas aqui no blog: embutir alguma poesia no prosaico.
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Não existe ódio, só o medo
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Em inglês: There’s no hate, only fear (baseado na frase The opposite of love is fear, not hate).

Design honesto
Nesse findi, acabei uma leitura que me deu muito prazer e que me trouxe boas idéias: Diseño (versão em espanhol para Terence Conran on Design), um livro de escrita fluida que terminei na estrada rumo ao interior do interior, num lugarzinho que caiu com uma luva pra fortalecer as melhores idéias do livro.
Ao longo dele, Terence Conran — um designer longevo e que portanto tem muita história pra contar — nos fala do design como um todo, ao mesmo tempo que se detém em partes específicas, como no design de produtos, de alimentos, de ferramentas, de ambientes de trabalho, de jardins etc. Em todas elas, perpassa uma idéia de que o design tem que ser justo naquilo que ele oferece, o design tem que ser honesto.
Por exemplo, ele comenta várias vezes sobre um dos seus ambientes prediletos, a cozinha. Não qualquer uma, mas aquelas que possuem em si as características de ambientes acolhedores e que fazem juz ao ritual que é cozinhar e se reunir com as pessoas que gostamos. Quem nunca participou de festas em que o ambiente mais agradável era ali, junto do forno e do fogão?
Essa ideía de um design franco e honesto, é questionada sobretudo quando discutimos tecnologia e tradição, dois campos que às vezes parecem não “se bicar”:
El diseño debería preocuparse de conservar lo mejor de lo antiguo y fomentar lo mejor de lo nuevo.
A proposição de Conran parece irrefutável. Mas é entre os desejos saudosistas e geeks que o design vai se definindo. E quem tem medida mais certa?

Uma pequena nota final: encontrei essa churrasqueira perto de um riozinho simpático, feita provavelmente por um grupo que se instalou ali pra pescar e acampar. Foi desenhada e executada com honestidade. Além de ser durável/sustentável, não há nela menos nem mais do que se esperaria de uma churrasqueira nessas condições. Mais adiante, um forno de tijolos de no mínimo 50 anos se erguia solitário, a despeito de não haver mais casa em torno dele.
A vez em que fui pro Uruguai a pé (Parte IV)
[Quarta parte dessa minisérie que deverá ter uns 10 capítulos.]
Como eu estava dizendo antes, eu tive uma visão, uma experiência de cunho religioso. Não, eu não vi nem falei com Deus… Falei com os representantes da firma.
Foi numa beira estrada, saindo do Cassino, enquanto eu comia umas frutas e dava um tempo sob o abrigo de uma parada de bus. Lá longe vinham eles, dois caras um pouco mais velhos do que eu, vestindo camisa branca de mangas curtas, com gravata, calça e sapatos pretos. Imaginem um lugar onde ninguém passa à pé. Acrescentem um sol de trinta e picos.
Que diálogo se passou entre nós?! Os caras me falaram da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, um nome que por si só já dá o que pensar. Eram missionários mórmons.
Não saí dali acreditando em Deus mais ou menos do que já acreditava. Não me converti à IJCSUD (dá trabalho escrever o nome inteiro!). Mas a situação era tão surreal quanto uma cena do filme Via Láctea, do Buñuel. E depois de falarem comigo com seu sotaque norte-americano e entregarem seus panfletos, partiram por uma estrada de chão pedregosa, contentes com a sua missão.
Segui no meu caminho, com a meta de chegar ao Taim naquele dia, o que consegui depois de pagar alguns pecados na estrada, que só era boa pra quem estivesse instalado dentro de qualquer coisa que se movesse sobre 2 ou 4 ou 10 rodas.
No final da tarde, tive uma idéia brilhante: me aprochegar na sede do IBAMA que ficava a alguns quilometros da pequena e simpática Vila do Taim, pra ver se rolava algum lugar pra dormir. Fato que me levou à automaldição de ter que caminhar os 6 quilômetros de volta para a vilinha, depois de ouvir um não.
A noite passada na beira da Lagoa Mirim me fez voltar a ter alguma consideração por mim mesmo. Nem uma leve chuva e um certo medo de que a lagoa avançasse, me encharcando no meio do sono, atrapalhou aquele mergulho na noite do sul do Brasil.
Melhor ainda foi acordar a fazer o primeiro rango com fogo de chão ali mesmo, perto da lagoa. Um miojo de dar inveja aos raros habitantes daquelas bandas. Um deles se aproximou com o filho pequeno e, curioso, puxou conversa. E mais: depois de uma pequena prosa, me convidou a passar na sua casa. Coisa mais simpática, o cidadão!
Foi esse sujeito que encontrei uma hora depois, espraiado no seu quintal com a família, deslumbrado comigo e com as minhas andanças, o protótipo de homem bom e ingênuo do interior.
Já de volta à caminhada, encontramos um vizinho seu andando à cavalo, a quem ele me apresentou. Ali de cima do cavalo, no tempo de uma rua de chão batido, ele me contou o seguinte causo:
Certa feita, um forasteiro que passou por aqui pediu água para um fazendeiro local. O fazendeiro, um tipo grosseiro e avarento, negou-lhe. O viajante se conformou e foi embora. Porém, naquele ano as vacas não deram mais leite e uma seca braba se abateu sobre o lugar. Por conta disso, nunca tratamos mal quem por aqui está de passagem.
Sorte minha que essa era a lenda do lugar.
Leia também:
A vez em que fui pro Uruguai a pé (Parte III)
[Terceira parte da minha história de errância rumo ao Sul. A segunda tá aqui.]
E assim segui errante rumo ao Sul. Errado ou certo, eu estava gostando daquela liberdade de escolha, por mais ilusória ou provisória que fosse… Aliás, recomendo para os que apreciam a dúvida e sabem tratá-la bem.
De Tavares parti de ônibus rumo a São José do Norte, cidade um tanto quanto mais notória que a remota Bojuru, onde fizemos uma pequena parada. Pelo que me lembro ou pelo que a minha memória inventa — o que dá no mesmo, porque posso ter inventado isso no momento em que vivia –, Bojuru era uma cidade arquetípica. O nome da farmácia era Farmácia, do restaurante era Restaurante e da lanchonete era Lanchonete. Isso bem pintado em letras garrafais na testeira da cada um dos recintos, como numa daquelas cidadedezinhas cenográficas de faroeste.
Pelo caminho da Estrada Real, extensão da do Inferno, atolamos na areia mais fofa. O motora convoca, com elegância: “todo mundo baixando do ônibus pra aliviar o peso e sairmos daqui!”.
Dali foi um pulo até São José do Norte e outro até Rio Grande, fazendo aquela travessia de balsa sempre agradável pra quem gosta de mar. Em Rio Grande fico bem instalado num hotel espaçoso no centro da cidade. Nesse ritmo vertiginoso, no outro dia já estou no Cassino, caminhando pelos molhes e visitando a carcaça do velho Altair, com direito a uma caroninha, porque não é de graça que o Cassino é chamada a praia mais extensa do mundo. No verão, a praia acaba sendo uma das poucas do RS em que fica liberado o tráfego de carros na areia.
Foi quase enterrado numa duna que eu passei essa noite, um olho fechado e outro aberto vendo aquele vrum-vrum-vrum de carros e motos constantes mas cada vez mais esparsos madrugada adentro.
Nesses dias todos de viagens, o tempo bom me favoreceu durante a noite (não choveu!) mas o sol castigava durantes as longas caminhadas diárias. Num desses trechos de sol a pino, com a cara queimada de insolação e a barba já ruiva de queimada, tive uma visão!
[Continua...]
Leia também:
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Layout para o blog do concurso de beleza Verão Top Model, da RBS TV de Santa Catarina.
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A vez em que fui pro Uruguai a pé (Parte II)
[Segunda parte do Onderroudi Gaúcho. A primeira tá aqui.]
Acordo e pé na estrada. Antes disso passo na recepção do Hotel pra fechar a conta. Moscas… Bato palma, espero, penso em deixar o dinheiro – singelos 10 mangos! – ali em cima do balcão e ir embora. E se o dinheiro voa? E se alguém passa ali e pega antes? Por via das dúvidas, pé na Estrada do Inferno. (Parêntese: anos depois, quando contei pra minha mãe, sem dar muita importância ao fato, ela quase me pegou pela mão e me fez voltar lá pra quitar a dívida).
O asfalto estava tinindo de tão novo, e o sol rachava o melão em dois. Se eu não tinha barraca, tampouco protetor solar. Quem pararia pra dar carona pra alguém de mochilão, naquelas bandas, àquelas alturas? Lá longe vinha uma camionete tão brilhante e amarela como o mais amarelos dos quindins, e amarela era a cor da sorte do dia.
Às vezes, durante a viagem, eu pensava: ganhar uma carona é algo tão natural, não deveria haver nenhum constrangimento de parte alguma. No início, Luiz Carlos, o economista de Porto Alegre, 52 anos e dono da camionete Mitsubish amarela, parecia meio ressabiado em dar aquela carona. Eu estava mais pra surpreso. O “Quindão” tinha um aparelho pouco usual pros carros da época, um GPS. O que o fez parar? Quem tinha jogado a meu favor era Pedro, 75, o sogro do Luiz. Alguma coisa me diz que ele já tinha contado muito com a boa vontade alheia pra rodar lá nas bandas de Dom Pedrito, de onde ele vinha.
O combinado era me deixarem na rodoviária de Tavares, de onde eu zarparia de ônibus até São José do Norte. Ônibus Tavares-São José do Norte: dia sim, dia não. Aquele era o dia… não. De pronto, recebo um convite pra ir passar o dia na fazenda do Luiz, que tem algumas (300) cabeças de gado na região, como hobby (sem ironia). Comemos um carreteiro em panela de ferro, contamos causos – mais eles do que eu, pois afinal só tinha 19 e sempre fora um guri de apartamento. Banda de carro no final da tarde pra conhecer melhor Tavares, uma cidade que parara no tempo 40 anos antes, nas palavras deles. Alguns homens escorados na frente do Bar Metralha, centro da cidade, comendo moscas e contando histórias. Um pôr-do-sol inesquecível no lado da lagoa e um até breve ao me deixarem no hotel mais ajeitado do lugar.
Moral do dia: quem tem bastante às vezes não tem medo de perder, então compartilha.
Leia também:
A vez em que fui pro Uruguai a pé (Parte I)
Na verdade, eu nunca fui para o Uruguai a pé. Pelo menos, não completamente. Para alguns que contei essa história do início ao fim, agradou-lhes pensar que eu tinha percorrido um grande trecho de terra caminhando, fato pouco provável que entretanto não me desagradaria.
Foi ontem o dia de dezembro em que o Roberto passou lá em casa como uma mola propulsora inventando essa trip. Ir pra Santa Catarina no verão de 2002 nos parecia uma idéia um pouco gasta, então decidimos ir pro Sul, só pra contrariar, digo, variar.
Qualquer idéia meia-boca me faria largar um estágio pelo verão que se apresentava. Juntei a merreca do meu último salário e pedi as contas. Pros meus pais, uma viagem de férias de uma semana. O detalhe é que estagiário, naquela época, não tinha essa regalia.
Saindo de bus, fomos de Porto Alegre pra Quintão, uma praia mais ou menos conhecida antes de encararmos qualquer coisa de que fazíamos uma vaga idéia. Mar, areia, umas lagoas. Dunas, muitas dunas. Numa delas, a gente esticou cada um o saco de dormir, sem barraca – nós nem sequer tínhamos uma. Eu me lembro de mergulhar numa noite ancestral. Eu nunca tinha visto um céu tão estrelado na minha vida. O vento em contato com a areia das dunas fazia um barulho assustador, um mugido de vaca, como a madeira que assovia quando queima.
Lembro de a gente acordar no outro dia, lavar a cara numa lagoazinha, e seguir na caminhada. Meu camarada de viagem ia um pouco à frente, sem nos perdermos de vista. Olhei pra ele subindo uma duna, e com um olhar, apontou: “vou por aqui”. No próximo instante, ele desceu pra trás de uma delas e pronto… não o vi mais. Nos próximos minutos, horas, dias!
O que pensar, o que fazer, solito em Bacopari, com a idéia de que seria bom ir a pé, de carona ou como fosse preciso até o Uruguai, adiante? Voltar? Não me passou pela cabeça.
Uma segunda noite, agora na beira da praia, só o saco de dormir me separando do vento inclemente e da areia. Quem conhece as boas praias do sul do Brasil sabe bem como é convidativa essa combinação à beira-mar.
Ainda tentando topar com o Roberto de alguma forma – alguém naquele semi-deserto devia tê-lo visto, algum sinal ele tinha deixado –, no terceiro dia as coisas começaram a acontecer. Quero dizer, o que fazer diante do daquela faixa imensa de areia e mar? Caminhar, até encontrar alguém.
Peguei a primeira carona do dia. Também a primeira da viagem. Digo… a primeira da vida, chamando no dedão! Um pescador, sua mulher grávida e um filho pequeno, num carango velho corroído pela maresia e movido a metanol, juro! O carro atolou na areia fofa e o motora, o pai de família, que não era má pessoa mas também não estava de muito bom humor, mandou a gente descer e empurrar. Eu, a mulher grávida e o piá de 6 anos.
Mais adiante, uma segunda carona, atrás de um caminhão pra levar marisco. Me levam até a vila do farol de Mostardas, me convidam pra comer peixe no seu barracão de pescadores (dois casais, filhos etc.) e assim me dão a morta do dia: quem tem pouco não tem medo de perder, então compartilha.
Casualmente, o caminhão de gás estava parado no butiquim da vila. Com alguma ajuda da família de pescadores, eu emendei a terceira carona do dia, rumo a Mostardas. O motorista e seu colega acham curioso, muito curioso, eu estar rodando por ali daquele jeito. Ficam admirados, e bem à vontade começam a contar causos. Passamos na frente do cemitério, e eles falam com seriedade e respeito sobre o filho de cada um deles que está ali. Tudo isso numa curta viagem que me leva a um simpático hotelzinho da cidade de Mostardas. Que dia! E que noite, bem dormida numa cama.
É favor escrever mais, e em português. Grato
Esses dias comecei a levantar uma bandeira com o meu camarada Arthur Freitas: a de que ele devia escrever mais. Quero dizer, melhorando o título desse post, que ele devia escrever (e publicar) textos mais longos… que se demorasse um pouco mais em algumas idéias. Isso porque eu conheço ele e desconfio que tenha boas idéias, assim como uma série de amigos meus.
O meu argumento, para o caso onde ele ou a maioria das pessoas dissessem que “não tem tempo”, foi simples. Se você pegar uma dia inspirado (ou dois ou três, depende de cada um) de 10 twittadas, multiplicados por 140 caracteres, isso dá um total de 1400 caracteres! Um pouco mais do dobro do que já escrevi até aqui e o suficiente pra contar um boa história.
Eu uso o meu blog para isso, assim como o email para algumas mensagens privadas mais longas. Mas pra quem já acha isso ultrapassado, assim como as missivas — vocês deviam conhecer o Heron, a única pessoa que ainda é capaz de enviar uma carta nos dias de hoje –, existem possibilidades como as notas do Facebook, para textos mais trabalhados.
Se você ainda está aqui, posso considerar que você também gosta de ler textos longos, afinal de contas, já são 1151 caracteres até aqui, uau! E além disso, como leitor atencioso que é, deve estar se perguntando “por que o português no título do post?”. É de um outro componente do atrofiamento da língua escrita que quer falar. Uma percepção particular minha, então fiquem à vontade pra discordar.
Percebo é que estamos lendo muito, nos informando e nos educando a partir do inglês. Observo isso sobretudo na área da tecnologia, onde atuo, mas vale também pra outras áreas.
O que acontece é que o nosso português está ficando meio “inglesado”. Pra me entenderem bem: o nosso jeito de pensar é que está ficando assim. Como língua materna, o português permite que a gente se expresse com o maior número de nuances possíveis, fazendo mais justiça ao que nos passa na cabeça. Eu vejo gente usando awesome!, terrific! e amazing! quando no lugar disso, um bom duca! ou afudê! (coisa do sul) bastaria e faria muito mais sentido.
Antes que eu fique nacionalista, um recado aos compatriotas de língua: o prato que nos serve melhor sempre vai ser o bom o velho portuga, então a minha dica é vá aprender latim antes de tudo (ou línguas que também vieram daí, como espanhol, italiano, francês, romeno), que você ganha muito mais!







