O Troglodita

Àquele que fala várias línguas, habitualmente dá-se o nome de: troglodita. Pois nessa vida me constituí assim, como um sujeito que sabe um pouco de todas elas, mal. Ou, no mínimo, de uma forma muito particular, que às vezes ninguém compreende.

As expressões que mais me atraem, quando aprendo uma língua, são as de xingamento. Por via delas, me apodero do título de cidadão nos lugares por onde passo. Nada mais cidadão do que reclamar, e nada mais eficaz que uma reclamação veemente (ou deemente).

Na esteira dos acontecimentos, tratei de aplicar todos os conhecimentos que a esteira me trouxe. Essa vida sempre nos traz algo de interessante. Os que têm uma penca de coisas interessantes para mostrar, em geral, se tornam professores, não sem prejuízo pra si. “Numa escala de 0 a 10, como você avalia o conhecimento de Fulano na língua Tal?”. Esse é todo o drama de quem julga o conhecimento de outrem. Como troglodita, nunca soube responder à pergunta nesses termos. Vejam meus critérios.

Nas minhas viagens ao estrangeiro freqüentemente flagrei, nos “donos da terra”, um sentimento de estranheza para com a minha pessoa. “Tudo transcorria bem até você chegar. Ou mal. Não importa, isso é problema nosso. O que você tem para nos oferecer?”. Pergunta justa, em boa parte das vezes feita sem raiva ou maldade. Nessa hora, urge uma boa resposta, e é bom que ela seja positiva. Tudo o que você precisa saber se resume num monossílabo, a mais positiva das palavras, o supra-sumo da positividade: o “sim”.

Diálogo hipotético:
“É a sua primeira vez aqui?”
“Sim.”
“E você fala a nossa língua?”
“Sim.”
“Ah, que ótimo!”
“Sim!”
“E o que o traz até nosso país?”
“Sim.”
“Sim? Que tipo de resposta é essa?!”
“Sim…”
“Não, não é possível! Que grande mentiroso você é!”
“Sim.”
“E estúpido.”
“Sim.”
“Meu deus! Desse jeito você não vai durar muito, vão comer seu fígado logo, logo.”
“Sim, sim.”
“Você precisa de ajuda, venha comigo.”
“Sim.”

O “sim”, portanto, é uma prova de humildade.

Outra prova do mesmo nível, é aprender a demonstrar a necessidade vital mais básica, a fome. Você pode se privar de comer por alguns dias. Ficar sem ver TV. Não usar desodorante. Ficar sem falar! Mas a sua sobrevivência depende, em determinado momento, da pronunciação da palavra mágica e infalível, a palavra “fome”.

Em suma, as três competências lingüísticas que enumerei anteriormente – a capacidade de xingar/esbravejar, somada à de dizer ”sim” e “fome” – são mais que suficientes para empreender uma viagem para fora. Numa escala de 0 a 10, elas garantiriam um belo 9, quem sabe. O último ponto fica por conta do improviso.

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