Coisas da aula

- Did I make myself clear?

- Adoro meu casaco da Ardidas!

- Eu amo tanto meu celular que, num momento de paroxismo desse amor, comê-lo-ia!

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Curitiba num outro findi

Me hospedei com a grande família no hotel Formule 1, que de outras viagens posso dizer que é exatamente igual em toda a parte. Isso me diz que o que importa não é o hotel, não é a companhia aérea nem o avião que nos leva, não é o padrão Mc Donald’s. O que é, então? O que diferencia uma cidade da outra? Primeiro: as pessoas. Porque comércio, shopping center, aereoporto… tudo igual. A arquitetura, a paisagem urbana, isso é algo que também faz a diferença. O jardim botânico, por exemplo, que várias cidades têm. O de Curitiba é bem abertão, tem cara de parque. O de Porto Alegre tem um baita matagal, não é tão convidativo.

Caminhando – uma das atividades mais reinvindicatórias da cidadania – é que dá pra sentir de fato o que pulsa numa cidade. Nos dias que estive lá senti a falta de ver as pessoas na rua, caminhando. Um visão particular minha, mas o Nando, meu parceiro de caminhandas incansáveis, compartilhou a mesma opinião. As pessoas são quem constroem a cidade.

Sem saber muito o que iria ver em termos de exposição, achei o Museu Oscar Niemayer, o “museu do olho”, na boca das pessoas. Quer dizer, a marca da arquitetura do Niemayer já está garantida, então o povo aproveita para dar o nome que quer. No elevador, lá dentro, estava escrito: “3º andar – Olho”.

Outra coisa, que eu não cheguei a apurar muito bem: os curitibanos são “na sua”, mais reservados. Outro dia na TV vi um documentário sobre a cidade, falando sobre Dalton Trevisan, Paulo Leminski etc. dizendo que Curitiba não tinha identidade cultural. O que pude perceber é que existe um forte esforço de organização, toda aquela história de trânsito e transporte modelo, uma coisa bem metódica.

O mercado público municipal representa esse método, eu creio. Super bem organizado, de novo comparando com o de Porto Alegre. Em relação à identidade cultural, acho esse último muito mais peculiar. Senti falta de algumas coisas como: Bar Naval, Banca 40, lojas com tambores e artigos de umbanda e candomblé etc.

Gostei bastante da cidade do jeito que ela me foi apresentada, por pessoas naturais de lá ou não. As pessoas é que constroem a cidade, e Curitiba é uma cidade em construção.

Cozinhar é compor

Pintar é uma piscina

La route de Grenoble à Pont-Audemer (mars 2006)

Rota disparatada começa montando um caminho caduco duro de roer curva por curva estradas de neve a borda de um lac fugindo pedágios num round point contínuo uma volta só de ida quem se encontra perdido se acha em si mesmo vidrado em variantes de uma mesma via cada pequena cidadezinha que me passava pela cabeça a idéia de chegar a algum lugar lugar algum Fórmula 1 Rouendo unhas enredados em Paris clic-clac depois do carrefour pega a direita nacional departamental e tudo mais e tal à meriva zarpamos num parto não-porto nem me importo pizza à emporter porta a dentro mundo a fora Normandia porque o sol se deita tarde porque  senão seria Normanoite rá rá rá.

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De PoA a Três Coroas (22 de Abril de 2002)

O início duvidoso – A certeza subsequente de que algo iria acontecer – Transporte na Maria fumaça sobre trilhos que causam enjôo – Armando barracas na chuva – Pedido de paz – Vinho – Tarde de declarações – O valor de um pé – Lanterna traseira que pisca – Frei Damião é o santo do vinho – A visita do Frei – Walesa e Vanessa – A primeira, eu encaro sozinha – A segunda, só acompanhada da primeira – Greta Gretada – A vontade de ser corrente e de não ser levado por ela – O relato sobre a loucura que acometeu uma guria – A purificação no Rio Paranhama – Mato espinhoso – Atum, um personagem – De volta, o velho veio de guarda chuva.

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O Troglodita

Àquele que fala várias línguas, habitualmente dá-se o nome de: troglodita. Pois nessa vida me constituí assim, como um sujeito que sabe um pouco de todas elas, mal. Ou, no mínimo, de uma forma muito particular, que às vezes ninguém compreende. Já me apelidaram também de “idiglota”.

As expressões que mais me atraem, quando aprendo uma língua, são as de xingamento. Por via delas, me apodero do título de cidadão nos lugares por onde passo. Nada mais cidadão do que reclamar, e nada mais eficaz que uma reclamação veemente (ou deemente).

Na esteira dos acontecimentos, tratei de aplicar todos os conhecimentos que a esteira me trouxe. Essa vida sempre nos traz algo de interessante. Os que têm uma penca de coisas interessantes para mostrar, em geral, se tornam professores, não sem prejuízo pra si. “Numa escala de 0 a 10, como você avalia o conhecimento de Fulano na língua Tal?”. Esse é todo o drama de quem julga o conhecimento de outrem. Como troglodita, nunca soube responder à pergunta nesses termos. Vejam meus critérios.

Nas minhas viagens ao estrangeiro freqüentemente flagrei, nos “donos da terra”, um sentimento de estranheza para com a minha pessoa. “Tudo transcorria bem até você chegar. Ou mal. Não importa, isso é problema nosso. O que você tem para nos oferecer?”. Pergunta justa, em boa parte das vezes feita sem raiva ou maldade. Nessa hora, urge uma boa resposta, e é bom que ela seja positiva. Tudo o que você precisa saber se resume num monossílabo, a mais positiva das palavras, o supra-sumo da positividade: a palavra “sim”.

Diálogo hipotético:
“É a sua primeira vez aqui?”
“Sim.”
“E você fala a nossa língua?”
“Sim.”
“Ah, que ótimo!”
“Sim!”
“E o que o traz até nosso país?”
“Sim.”
“Sim? Que tipo de resposta é essa?!”
“Sim…”
“Não, não é possível! Que grande mentiroso você é!”
“Sim.”
“E estúpido.”
“Sim.”
“Meu deus! Desse jeito você não vai durar muito, vão comer seu fígado logo, logo.”
“Sim, sim.”
“Você precisa de ajuda, venha comigo.”
“Sim.”

O “sim”, portanto, é uma prova de humildade.

Outra prova do mesmo nível, é aprender a demonstrar a necessidade vital mais básica, a fome. Você pode se privar de comer por alguns dias. Ficar sem ver TV. Não usar desodorante. Ficar sem falar! Mas a sua sobrevivência depende, em determinado momento, da pronunciação da palavra mágica e infalível, a palavra “fome”.

Em suma, as três competências lingüísticas que enumerei anteriormente – a capacidade de xingar/esbravejar, somada à de dizer ”sim” e “fome” – são mais que suficientes para empreender uma viagem para fora. Numa escala de 0 a 10, elas garantiriam um belo 9, quem sabe. O último ponto fica por conta do improviso.

dito

deuscastiga

Auto-retrato

A fotoA partir de uma foto tirada sorrateiramente (créditos, a quem?), na fila, à espera de um autógrafo de livro, montei um auto-retrato que fala sobre mim e a minha forma de organizar as coisas no mundo.

Para compô-lo, me servi de uma memória de infância: quando pequeno tinha o hábito de  servir e dispor a minha comida no prato de maneira completamente ordenada, quiçá metódica. Isto é:  um lugar para o feijão, outro para o arroz, outro para a salada, e assim por diante. E a lógica mandava que cada um fosse ingerido independente do outro, sem misturas no prato. Limites bem definidos.

No auto-retrato em questão procurei reproduzir esse modo de ser, que não é mais o mesmo, posso asegurar! Estou longe de ser um sujeito cri-cri ou caxias, embora a minha personalidade deva encontrar ecos, até hoje, desse modus operandi.

O primeiro passo no tratamento da imagem foi recortá-la e convertê-la para uma imagem de alto constraste. Feito isso, fui atrás de imagens de comidas, com a exigência de que tivessem uma textura visual interessante. Acabei optando pelo estética “prato feito”, com arroz, massa a feijão.

auto_autocontrasteauto_rangos

Finalmente, sobrepus e combinei camadas no Photoshop, e usei o vermelho no quadro/massa. Como as pinturas que me acompanham na foto (retratos), essa imagem final traça a geografia do meu rosto, com todos seus significados.

autoretrato_final

Bababa

fevereiro 2010
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