A vez em que fui pro Uruguai a pé (Parte II)

[Segunda parte do Onderroudi Gaúcho. A primeira tá aqui.]

Acordo e pé na estrada. Antes disso passo na recepção do Hotel pra fechar a conta. Moscas… Bato palma, espero, penso em deixar o dinheiro – singelos 10 mangos! – ali em cima do balcão e ir embora. E se o dinheiro voa? E se alguém passa ali e pega antes? Por via das dúvidas, pé na Estrada do Inferno. (Parêntese: anos depois, quando contei pra minha mãe, sem dar muita importância ao fato, ela quase me pegou pela mão e me fez voltar lá pra quitar a dívida).

O asfalto estava tinindo de tão novo, e o sol rachava o melão em dois. Se eu não tinha barraca, tampouco protetor solar. Quem pararia pra dar carona pra alguém de mochilão, naquelas bandas, àquelas alturas? Lá longe vinha uma camionete tão brilhante e amarela como o mais amarelos dos quindins, e amarela era a cor da sorte do dia.

Foto: Moyan_Brenn (Flickr)

Às vezes, durante a viagem, eu pensava: ganhar uma carona é algo tão natural, não deveria haver nenhum constrangimento de parte alguma. No início, Luiz Carlos, o economista de Porto Alegre, 52 anos e dono da camionete Mitsubish amarela, parecia meio ressabiado em dar aquela carona. Eu estava mais pra surpreso. O “Quindão” tinha um aparelho pouco usual pros carros da época, um GPS. O que o fez parar? Quem tinha jogado a meu favor era Pedro, 75, o sogro do Luiz. Alguma coisa me diz que ele já tinha contado muito com a boa vontade alheia pra rodar lá nas bandas de Dom Predito, de onde ele vinha.

O combinado era me deixarem na rodoviária de Tavares, de onde eu zarparia de ônibus até São José do Norte. Ônibus Tavares-São José do Norte: dia sim, dia não. Aquele era o dia… não. De pronto, recebo um convite pra ir passar o dia na fazenda do Luiz, que tem algumas (300) cabeças de gado na região, como hobby (sem ironia). Comemos um carreteiro em panela de ferro, contamos causos – mais eles do que eu, pois afinal só tinha 19 e sempre fora um guri de apartamento. Banda de carro no final da tarde pra conhecer melhor Tavares, uma cidade que parara no tempo 40 anos antes, nas palavras deles. Alguns homens escorados na frente do Bar Metralha, centro da cidade, comendo moscas e contando histórias. Um pôr-do-sol inesquecível no lado da lagoa e um até breve ao me deixarem no hotel mais ajeitado do lugar.

Moral do dia: quem tem bastante às vezes não tem medo de perder, então compartilha.

Leia também:

A vez em que fui pro Uruguai a pé (Parte I)

Na verdade, eu nunca fui para o Uruguai a pé. Pelo menos, não completamente. Para alguns que contei essa história do início ao fim, agradou-lhes pensar que eu tinha percorrido um grande trecho de terra caminhando, fato pouco provável que entretanto não me desagradaria.

Foi ontem o dia de dezembro em que o Roberto passou lá em casa como uma mola propulsora inventando essa trip. Ir pra Santa Catarina no verão de 2002 nos parecia uma idéia um pouco gasta, então decidimos ir pro Sul, só pra contrariar, digo, variar.

Qualquer idéia meia-boca me faria largar um estágio pelo verão que se apresentava. Juntei a merreca do meu último salário e pedi as contas. Pros meus pais, uma viagem de férias de uma semana. O detalhe é que estagiário, naquela época, não tinha essa regalia.

Saindo de bus, fomos de Porto Alegre pra Quintão, uma praia mais ou menos conhecida antes de encararmos qualquer coisa de que fazíamos uma vaga idéia. Mar, areia, umas lagoas. Dunas, muitas dunas. Numa delas, a gente esticou cada um o saco de dormir, sem barraca – nós nem sequer tínhamos uma. Eu me lembro de mergulhar numa noite ancestral. Eu nunca tinha visto um céu tão estrelado na minha vida. O vento em contato com a areia das dunas fazia um barulho assustador, um mugido de vaca, como a madeira que assovia quando queima.

Lembro de a gente acordar no outro dia, lavar a cara numa lagoazinha, e seguir na caminhada. Meu camarada de viagem ia um pouco à frente, sem nos perdermos de vista. Olhei pra ele subindo uma duna, e com um olhar, apontou: “vou por aqui”. No próximo instante, ele desceu pra trás de uma delas e pronto… não o vi mais. Nos próximos minutos, horas, dias!

Foto por mikebaird (Flickr)

O que pensar, o que fazer, solito em Bacopari, com a idéia de que seria bom ir a pé, de carona ou como fosse preciso até o Uruguai, adiante? Voltar? Não me passou pela cabeça.

Uma segunda noite, agora na beira da praia, só o saco de dormir me separando do vento inclemente e da areia. Quem conhece as boas praias do sul do Brasil sabe bem como é convidativa essa combinação à beira-mar.

Ainda tentando topar com o Roberto de alguma forma – alguém naquele semi-deserto devia tê-lo visto, algum sinal ele tinha deixado –, no terceiro dia as coisas começaram a acontecer. Quero dizer, o que fazer diante do daquela faixa imensa de areia e mar? Caminhar, até encontrar alguém.

Peguei a primeira carona do dia. Também a primeira da viagem. Digo… a primeira da vida, chamando no dedão! Um pescador, sua mulher grávida e um filho pequeno, num carango velho corroído pela maresia e movido a metanol, juro! O carro atolou na areia fofa e o motora, o pai de família, que não era má pessoa mas também não estava de muito bom humor, mandou a gente descer e empurrar. Eu, a mulher grávida e o piá de 6 anos.

Mais adiante, uma segunda carona, atrás de um caminhão pra levar marisco. Me levam até a vila do farol de Mostardas, me convidam pra comer peixe no seu barracão de pescadores (dois casais, filhos etc.) e assim me dão a morta do dia: quem tem pouco não tem medo de perder, então compartilha.

Casualmente, o caminhão de gás estava parado no butiquim da vila. Com alguma ajuda da família de pescadores, eu emendei a terceira carona do dia, rumo a Mostardas. O motorista e seu colega acham curioso, muito curioso, eu estar rodando por ali daquele jeito. Ficam admirados, e bem à vontade começam a contar causos. Passamos na frente do cemitério, e eles falam com seriedade e respeito sobre o filho de cada um deles que está ali. Tudo isso numa curta viagem que me leva a um simpático hotelzinho da cidade de Mostardas. Que dia! E que noite, bem dormida numa cama.

É favor escrever mais, e em português. Grato

Esses dias comecei a levantar uma bandeira com o meu camarada Arthur Freitas: a de que ele devia escrever mais. Quero dizer, melhorando o título desse post, que ele devia escrever (e publicar) textos mais longos… que se demorasse um pouco mais em algumas idéias. Isso porque eu conheço ele e desconfio que tenha boas idéias, assim como uma série de amigos meus.

O meu argumento, para o caso onde ele ou a maioria das pessoas dissessem que “não tem tempo”, foi simples. Se você pegar uma dia inspirado (ou dois ou três, depende de cada um) de 10 twittadas, multiplicados por 140 caracteres, isso dá um total de 1400 caracteres! Um pouco mais do dobro do que já escrevi até aqui e o suficiente pra contar um boa história.

Eu uso o meu blog para isso, assim como o email para algumas mensagens privadas mais longas. Mas pra quem já acha isso ultrapassado, assim como as missivas — vocês deviam conhecer o Heron, a única pessoa que ainda é capaz de enviar uma carta nos dias de hoje –, existem possibilidades como as notas do Facebook, para textos mais trabalhados.

Writings

Foto: robynhub (flickr)

Se você ainda está aqui, posso considerar que você também gosta de ler textos longos, afinal de contas, já são 1151 caracteres até aqui, uau! E além disso, como leitor atencioso que é, deve estar se perguntando “por que o português no título do post?”. É de um outro componente do atrofiamento da língua escrita que quer falar. Uma percepção particular minha, então fiquem à vontade pra discordar.

Percebo é que estamos lendo muito, nos informando e nos educando a partir do inglês. Observo isso sobretudo na área da tecnologia, onde atuo, mas vale também pra outras áreas.

O que acontece é que o nosso português está ficando meio “inglesado”. Pra me entenderem bem: o nosso jeito de pensar é que está ficando assim. Como língua materna, o português permite que a gente se expresse com o maior número de nuances possíveis, fazendo mais justiça ao que nos passa na cabeça. Eu vejo gente usando awesome!, terrific! e amazing! quando no lugar disso, um bom duca! ou afudê! (coisa do sul) bastaria e faria muito mais sentido.

Antes que eu fique nacionalista, um recado aos compatriotas de língua: o prato que nos serve melhor sempre vai ser o bom o velho portuga, então a minha dica é vá aprender latim antes de tudo (ou línguas que também vieram daí, como espanhol, italiano, francês, romeno), que você ganha muito mais!

Design e Emoção + “Designing for Happiness”

Nessa quinta feira passada, foi fundado o captítulo porto-alegrense da Design and Emotion Society, um grupo dedicado a estudar a relação e a instersecção entre os dois assuntos — o design e as emoções. Pode até não ser novidade que alguns produtos e serviços nos toquem emocionalmente, mas o que o grupo parece querer enfatizar é que boa parte das decisões de consumo não é guiada pela razão, e sim por motivos como os da ordem do desejo e do afeto.

Foto: Margarida Graúdo

Lean­dro Tonetto, o primeiro palestrante, colocou que não se trata de entender as emoções das pessoas como um artifício para “enganá-las melhor”, mas o que as faz optar por uma coisa ou outra.

Marcos Nähr, na sequência, descreveu o o fluxo através do qual um serviço se torna “tocante” (palavra minha): quando ele deixa de ser commodity para ser um bem de consumo para ser um serviço para ser uma experiência para ser uma experiência plus.

Filipe Campelo da Costa fez as vezes de elencar tudo o que se produziu em termos de produção científica sobre o assunto.

Pieter Desmet, professor holândes e pesquisador do assunto de longa data, falou sobre o conceito de desenhar para a felicidade (design for hapiness), idéia que vai além de proporcionar alegria às pessoas. Num exercício com seus alunos, constatou que a mistura e a valorização do talento, dos prazeres e dos valores que uma pessoa tem, somados à capacidade de contribuição, são atributos que levam à felicidade.

[Update de 18/01/2011]: A apresentação mesma apresentação de Pieter pode ser vista aqui, nesse vídeo.

Mas… o que te emociona, o que te faz feliz?

Se é pra pensar no tipo de situação que me faz feliz como pessoa/consumidor, acho que tenho um bom exemplo, que aconteceu casualmente logo depois das palestras que descrevi. Uma experiência do âmbito pessoal que podia muito bem ter sido proporcionada por uma marca ou prestador de serviços.

Recebi uma encomenda!  ”– Mas, peraí… eu não tinha pedido nada pra Amazon, Submarino etc.” Nada. Era algo enviado espontaneamente. Nos dias que correm, onde a gente não se corresponde mais por carta e os telegramas são artigos raríssimos, o que resta pra caixa de correio são as contas a pagar e eventualmente, malas-direta (estou livre dessas últimas). Ou seja, nada de surpresas.

O meu amigo Daniel, de Curitiba, com quem estou colaborando como ilustrador, me enviou um pacote com uma camiseta e vários ingressos para os principais filmes em cartaz.

São aquelas coisas que nos surpreendem porque vem sem obrigação e, em geral, são uma surpresa na hora certa, levemente aguardada. Some-se a isso o fato de que tem alguém que lembra de você, que se importa e quer lhe dar um prazer. É uma idéia de felicidade.

E você, qual é a sua?

Design Gráfico: Gaúcha no Carnaval

A parte mais divertida desse trabalho foi ter conhecido o Cláudio Brito e ter ouvido as histórias de outros carnavais. Foi ele que fez uma série chamada Personagens da Folia, comandou as transmissões da Gaúcha no Carnaval e protagonizou o famoso causo do “fecha em mim que eu vou chorar“. Ele respira e transpira carnaval há muito tempo.

Teaser do Gaúcha no Carnaval

Recomendo, para os aficcionados ou não!

São só… Detalhes

Eu nunca entendia (leia-se: não aceitava) quando o diretor da antiga empresa onde trabalhava, em vias de colocarmos algum site no ar, se fixava em detalhes que pra mim não tinham a mínima importância.

Numa dessas ocasiões de aprovação final, fiquei surpreendido (leia-se: contrariado) quando os únicos comentários que ele fez foram em relação ao favicon (que ainda não existia) e alguns erros de português espalhados pelo site.

Na minha cabeça, ter um site bem construído — com um bom apelo visual, funcional, de navegação fluida e com um código bem escrito por trás — era tudo que podia importar nessa vida. (O que não está tão longe assim de ser verdade).

Quando os detalhes importam

Imagine que você vai a um restaurante e pede um delicioso prato feito com esmero pelo Chef. No prato que você pediu vem arroz, purê de batata e um entrecot coberto por uma fatia de queijo provolone. [Rios de saliva...] Foi exatamente esse o meu almoço de hoje, e posso lhes assegurar: tava bom pra caramba!

Mas, querem saber?… Faltava alguma coisa naquele prato. Visualmente, ele não inspirava, era tudo muito “branco”, faltava cor! Faltava um detalhe, aquela folhinha verde no meio do prato, aquela pimentinha vermelha…

“E o que isso tem a ver com a história dos detalhes de um site?”, pergunta o leitor, mal se contendo de angústia na sua cadeira.

Deixa eu mostrar pra vocês de forma prática, como fiz com os pratos. Quando você adiciona um site a sua lista de favoritos, pesquisa no histórico ou na barra de endereços, aparece uma pequena imagem associada ao endereço (o tal favicon)… ou não, se o dono desse site não tiver escolhido nenhuma. O nosso olho escaneia essas pequenas imagenzinhas e vai direto ao que interessa. Compare você mesmo:

Barra de Endereço do Navegador: com os favicons (dir.) ou sem eles (esq).

Pra concluir…

…e a afinar um pouco mais o quero dizer:

  • Os detalhes, por si só, não são a “salvação da lavoura”. Se o todo está mal realizado, não são as pequenas partes que vão salvá-lo.
  • Os detalhes nem sempre devem ser a prioridade zero. Cabe a nós eleger os detalhes que vão fazer a diferença.
  • Um bom detalhe é como a assinatura de um quadro: se ele nos agrada, vamos procurar por ela.

O Rio que me chama

Todas as vezes que vim ao Rio de Janeiro* foi com um misto de fascínio e um pouco de medo. Vindo de Porto Alegre, é como se estivesse saído do interior pra uma cidade grande, muito grande. Medo, pela propagandeada violência. Fascínio, porque o Rio é três coisas tão grandes para estarem juntas no mesmo lugar: é a babilônia de carros, casas, prédios, pessoas espremidas tentando se entender; é a imensidão do mar; e é a imponência geográfica dos morros e pedras gigantescas. (Ok, pode ser que tenham mais coisas, mas isso pra mim já basta pra se surpreender).

Vista parcial da janela do apê em que fiquei, em Copacabana

A combinação desses fatores é, no meu ver, o que faz as pessoas virem massiva e insistentemente pra cá (incluso eu). Se não for pelas incontáveis possibilidades de encontros na selva de pedra, ainda há o mar pra você ficar olhando enquanto toma qualquer coisa gelada. Na realidade, a praia também é babilônica. Alguns dizem que é São Paulo com mar… Mas eu prefiro com mar. :)

O Rio de Janeiro, essa cidade que já foi a capital do país, parece também condensar em si uma realidade que é extremamente brasileira, pelo bem ou pelo mal. As desigualdades sociais gritam. A gente e os ritmos musicais se misturam. A cordialidade e a violência convivem.

Eu sei que escrevo desde um ponto de vista turístico, de quem não mora aqui. Mas essas são as coisas que me chamam a atenção e me fazem vir pra cá.

Vista total.

* Era onde estava quando eu escrevi esse texto.

Série Aronofsky no interrogAção

O pessoal do interrogAção tá preparando uma série de artigos sobre os filmes do Aronofsky, e eu vou fazer as ilustrações pra cada um deles (é o que reza a lenda!). Por via das dúvidas, vão acompanhando os conteúdos sempre atualizados pelos incansáveis escribas elfos. Aí vai a primeira ilustra, pro filme Cisne Negro (Black Swan):

Cisne Negro / Black Swan

[Update de 16/01/2011]: Antes de fazer esse remake de cartaz, eu ainda não tinha lido essa matéria do Guardian, com as versões de cartaz pro lançamento do filme.